Ser triatleta não é pra qualquer um, afinal nadar, pedalar e correr requer não uma, mas várias doses de disciplina, determinação, esforço, entre outros…
Talvez por isso e pela minha pouquíssima intimidade com o meio líquido, eu apenas corra. Contudo, com a chegada da primavera em Montréal, fica difícil não querer trocar o carro por uma bike e desbravar a cidade. Por aqui também temos um sistema de bicicletas de aluguel como o “Samba”, entretanto, são 5000 BIXIs distribuídas em 400 estações. A inspiração para a postagem de hoje veio justamente de um dia em que tive de pedalar e correr.
Pesquisas em psicologia do esporte sugerem que quanto maior a importância do evento maior o nível de ansiedade relacionado ao mesmo. Pois bem, minha situação era a seguinte, havia acabado de acessar a internet e perceber que minha conta bancária não teria saldo suficiente para cobrir um cheque que entraria no mesmo dia. Como no Canadá é necessário construir um histórico de crédito, não se pode cogitar ter a conta negativa. Eu precisava fazer um depósito no mesmo dia. Tinha apenas alguns minutos para chegar ao banco e meu único meio de transporte disponível era a BIXI. Não pensei duas vezes, peguei a magrela e voei pro banco, no caminho o vento na cara dificultava o trajeto, não havia nenhuma roda pra eu pegar, mas fui pensando positivamente, afinal não queria prejudicar minha performance.
Foi no meio do caminho, onde algo me veio a mente: eu não conhecia as estações para devolver a bicicleta próximas ao banco. Ou seja, eu não conhecia a área de transição! Essa incerteza começou a me incomodar, meu diálogo interno (quando pensamos como se estivéssemos conversando sozinhos) estava me colocando bem pra baixo, comecei a me culpar por não ter preparado antes o trajeto, por não ter verificado quais estações tinham vagas, e logo vieram os famosos e se... E se não tivesse vaga na estação próxima ao banco, e se a minha conta ficar vermelha e todo o meu histórico for arrebentado por causa daquela falha na transição!
Deixando a minha “epopeia” de lado, quantas vezes isso não acontece em uma prova? Quando algo sai errado, ou como eu gosto de dizer, diferente do planejado, como reagimos ao ocorrido. Falar é fácil, em alguns esportes os técnicos adoram gritar: “CONCENTRA”!
- Concentrar no quê?! O atleta se pergunta.
Uma boa resposta é: foque no que você pode mudar! Concentrar é redirecionar este diálogo a seu favor. No meu caso, utilizei uma técnica para interromper meus pensamentos negativos. Simplesmente dizendo: “PARE”. Após isso, pensei: “ok, agora o que posso fazer para minimizar esta falha na preparação? Encontrei várias respostas: 1- pedalar de forma mais eficiente, 2- encontrar a estação mais próxima, 3- correr mais rápido, e, é claro 4- lembrar qual o meu objetivo.
Coloquei o plano em prática. 1- Ao pedalar de mountain bike, um amigo me disse que deveria “girar leve”, então repeti para mim mesmo, “giro de pluma”, focando não mais nos aspectos negativos de um possível atraso, mas na execução do movimento. 2- Comecei a observar as ruas próximas para ver se já encontrava alguma estação, normalmente há um padrão, ficam sempre a esquerda de determinada rua. 3- busquei o melhor caminho para a corrida, onde tinham sinais de trânsito (semáforos) para que calculasse a minha corrida sabendo que talvez teria de parar de correr . 4- lembrei que meu objetivo era chegar antes de fechar o banco, não importava se com 5 ou com 1 minuto de antecedência. Verifiquei meu relógio e percebi que era bem viável.
Se o atleta planejou 3 cenários distintos, ele está preparado para reagir a diversas situações desafiadoras que aconteçam durante a prova. Seja por já ter vivenciado algo parecido durante os treinos, seja por ter visualizado durante seus treinos mentais. Mas mesmo quando não houve este planejamento o resultado pode ser positivo. No meu caso, consegui cruzar a “linha de chegada” a tempo de salvar meu histórico bancário.
